[Atualização: Em abril de 2008, o padrão OOXML conseguiu ser aprovado como a norma ISO/IEC DIS 29500. Veja o artigo Nem Microsoft consegue implementar todo OOXML.]

O conjunto de formatos de documento Office Open XML (OOXML), oriundo dos formatos do Microsoft Office 2007 padronizados pela ECMA International, não foi aceito como padrão ISO na votação que se encerrou domingo, dia 2 de setembro. A decisão final ocorrerá em Genebra, de 25 a 29 de fevereiro de 2008.

O processo de votação durou nove meses e foi aberto a 104 países membros da ISO/IEC, que avalia o padrão ECMA-376 como a proposta ISO/IEC DIS 29500, Office Open XML file formats, no subcomitê técnico JTC1 / SC34.

O subcomitê é composto por países membros, representados por seus órgãos nacionais de padronização, divididos entre países participantes (P) e observadores (O). Tem ainda conexão com os organismos internacionais ISUG, OASIS e W3C. O Brasil é membro participante (P), representado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

Uma aprovação na ISO/IEC requer que pelo menos 2/3 (i.e. 66,66%) dos votos emitidos por países participantes (P) do comitê sejam positivos; além disso, não pode haver mais que 1/4 (25%) do total de países votantes negativo. Computam-se apenas os votos válidos, não incluídas abstenções.

Nenhum destes critérios foi atingido na votação do DIS 29500, que teve 53,12% positivos nos votos válidos dos 41 participantes “P” (17 dos 32, com 9 abstenções) e 26,1% negativos totais (“P” + “O”), 18 dentre 69 válidos. Detalhes da votação podem ser conferidos em OOXML Perdeu, por Avi Alkalay, IBM Brasil, 2007-09-04; e Results of the OOXML Ballot of 2nd September (em inglês), por NoOOXML.

A secretaria da ISO decidiu levar a questão adiante até um Ballot Resolution Meeting (BRM – encontro de resolução de votação), para decisão final. De 25 a 29 de fevereiro do ano que vem, representantes nacionais vão se encontrar em Genebra, na Suíça, para discutir e realizar a votação final do OOXML.

Até lá, as especificações do OpenXML devem ser editadas e adaptadas para atender aos 63 comentários submetidos à ISO, por órgãos nacionais de padronização de países membros, durante o período de revisão.

Histórico

A Microsoft havia submetido o formato OOXML para padronização pela ECMA em novembro de 2005. Foi uma reação à padronização do formato aberto de documentos do OpenOffice.org Open Document (ODF) versão 1.0 pelo OASIS, em maio de 2005 e então aprovado como padrão internacional ISO/IEC 26300, em novembro de 2006.

A especificação OOXML, gigante nebuloso de mais de 6000 páginas, teve seu rascunho aprovado pela ECMA em novembro de 2006 e logo submetido à ISO/IEC, para avaliação como padrão internacional. O processo na ISO/IEC corre em caráter de “via expressa” (fast track), valendo-se de acordos existentes entre ECMA e ISO.

Em dezembro de 2006 a ECMA aprovou a especificação OOXML como o padrão ECMA-376. Já na ISO, a controversa proposta não teve aceitação tão fácil.

Durante os nove meses que se passaram desde então, o formato OOXML foi duramente criticado por especialistas e organizações em torno da comunidade de software livre mundial, tanto quanto às falhas e inconsistências no formato quanto à lisura do pretenso padrão, que de tão complexo e intrincado mostra não ser verdadeiramente aberto, de forma que só o Microsoft Office seria efetivamente capaz de implementá-lo.

Bastidores da votação

A ABNT votou “não com comentários” pelo Brasil. O voto brasileiro contra o OOXML é coerente com o país onde o governo, a diplomacia e grande parte da comunidade de desenvolvedores e usuários apóia e é engajada no software livre no Brasil e no mundo. Em contraposição, OOXML é um padrão proposto por um único fornecedor comercial e implementado por um único produto proprietário, o Microsoft Office.

As discussões no Grupo de Trabalho (GT2) da ABNT para o OOXML, em 21 e 22 de agosto, foram conturbadas e inconclusivas, conforme relatos do membro Avi Alkalay, IBM: Indefinição Marca Fim da Votação do OOXML na ABNT; Impressões Sobre Reunião Final da ABNT; e OOXML: Brazil Says NO. Foi consenso porém que não se queria abstenção de voto do Brasil e que todos concordavam com os 63 comentários recebidos na ISO para o OOXML. Assim, restavam as opções “sim com comentários” e “não com comentários”. Com a ponderação de que o “não” daria mais força aos comentários, decidiu-se finalmente pelo voto brasileiro “não com comentários”.

Sobre o GT2 da ABNT e sua decisão, veja também os artigos sobre OpenXML por Cezar Taurion, IBM; e a explicação sobre os resultados da votação na ISO por Eugenio Guilherme Tolstoy De Simone, atual diretor da ABNT, divulgada pelo blog Homembit em “Valeu ou não valeu?”, 2007-09-05.

BR-Linux.org divulgou em 30 de agosto que às vésperas do final do prazo, EUA e Suécia mudaram seus votos. Nos Estados Unidos, seu comitê representante INCITS teve dia 29/08 uma inesperada decisão de voto a favor depois que quatro membros — grupo GS1, Lexmark, National Institute of Standards and Technology (NIST) e o Departamento de Defesa (DoD) Americano — mudaram seus votos, anteriormente contrários. Veja o resultado completo da votação no INCITS.

Na Suécia a coisa foi ainda mais feia. A subsidiária sueca da IDG divulgou o conteúdo vazado de um memorando da Microsoft em que um empregado oferecia vantagens financeiras em troca de seus parceiros se juntarem ao Swedish Institute of Standards (SIS) para votar sim ao OOXML. A Microsoft confirmou a informação, mas disse que a oferta, tão logo descoberta, foi prontamente retirada e que os gerentes da Microsoft Suécia voluntariamente notificaram o SIS do fato.

Antes disso, já haviam ocorrido críticas ao lobby da Microsoft Portugal em favor do OOXML. Veja em Portugal: Balanço da votação da proposta de norma DIS 29500, vulgarmente conhecida por OOXML, por Redação PSL Brasil, 2007-08-06; e Microsoft Stuffs OOXML Ballot Box in Sweden? (em inglês), por Jeff Kaplan, 2007-08-27.

Apesar de tudo, a Microsoft divulgou o esperançoso press release Strong Global Support for Open XML as It Enters Final Phase of ISO Standards Process (em inglês) ontem. O otimismo e súbito interesse em padrões da Microsoft foi comentado com espanto no artigo Microsoft OOXML ballot stuffing comes up short (em inglês), por David Hunter, 2007-09-04.

Para saber mais: